03
As luzes pulsam em flashes. Uma cara fala comigo - não sei se é real ou imaginação. Linhas em formigueiro correm pelas paredes de azulejo branco da casa de banho. A porta trancada vibra a 130 bpm. Lá fora o rio está calmo. A lua vermelha dança nas pequenas ondas.
É sexta-feira.
O dia de trabalho correu bem. A semana começou a recuperar de um convívio que se estendeu demasiado e só na quarta-feira senti o pensamento voltar ao sítio. Na terça, numa reunião, fizeram-me uma pergunta difícil e à frente dos meus olhos apareceu uma mancha negra pontilhada de partículas multicolores em movimento frenético, e a resposta em lado nenhum.
Passei o dia a roer a lateral da bochecha até me distrair e ferir-me. Dou suspiros fundos de dois em dois minutos, como um espreguiçar sombrio que alivia o peso no peito. Nestas alturas, quando tenho de falar com alguém de frente, especialmente num espaço fechado, sinto que posso cair para o chão a qualquer momento.
Porquê sair?
A excitação de ir emborcando uma cerveja com entusiasmo, sobre uma mesa de toalha de papel. Alguém à frente a esvaziar o copo ao mesmo ritmo que nós. O restaurante num enxame de risos e debates improvisados. As conversas tornam-se infinitas, sem medo dos silêncios, sem medo de ficar sem assunto.
Amo-te irmão.
E eu a ti, meu mano.
O início de uma noite continua a ser um êxtase, uma cavalgada em frente para uma linha de horizonte distante. Tudo está em aberto. Como uma sessão de música prestes a começar, tudo pode acontecer. Como uma viagem com amigos aos 18 anos prestes a começar.
Mais uma cerveja. Vou só à casa de banho. Sorrio para a parede de azulejo à minha frente, um calor a massajar-me o cérebro, a pensar na piada que vou dizer quando voltar para a mesa.
Amo-te, mano.
Mas uma sessão de música de dez horas não funciona tão bem se tiver tido uma noite em espiral nos dias anteriores.
Nos dias seguintes não há ideias. Apenas revisito conversas do décimo copo, quando a excitação se transformou em política, sociedade e certezas filosóficas do momento. A voz subiu sem eu me perceber. Interrompi pessoas como se estivesse prestes a dizer algo que mudaria tudo. Abraçámo-nos ao balcão antes de gritar boa noite para ninguém em particular. Amo-te, mano.
Janela aberta. Música alta. Encontramo-nos em Marvila. Marvila aparece mais rápido do que dizia no Google Maps.
Em 2017, um amigo meu teve um ataque epiléptico em minha casa. Reparei num sorriso estranho que não era o dele ao pedir-me um copo de água. Passado uns minutos, o corpo dele a bater no chão, os olhos revirados, a coluna arqueada entre edredons azuis com um print de urso polar. No telemóvel, a namorada francesa gritava a milhares de quilómetros de distância.
No hospital disseram que podia acontecer a qualquer pessoa de ressaca.
Desde aí, nestas alturas, quando tenho de falar com alguém num espaço fechado, sinto que as paredes de trás se aproximam, e posso cair para o chão a tremer a qualquer momento.
O gelo derrete dento do meu vodka tónico. Furamos a multidão. O meu corpo trapalhão choca com estranhos. A minha mão a toca-se pelo alto na de um conhecido que nos cumprimenta. As colunas rebentam à nossa frente como uma batalha épica. Encosto a testa na tua. Tentamos falar sem perceber nada. As línguas tocam-se.
Trabalhar.
Sentir-me bem com o que fiz.
Já não saio há algum tempo.
Mereço espairecer.
Seis da manhã, Uber para casa.
O que é que eu disse ontem?
Nunca mais quero sair.
Repetir.
O que procuro na noite?
Sem álcool tenho menos coisas para dizer - ou talvez saiam só mais devagar. Mas o primeiro copo aumenta a probabilidade de destruir dias de trabalho de estúdio, e tenho um álbum para acabar.
Talvez seja uma dança com a morte.
Anestesiado, consigo fingir que não me importa se tudo acaba esta noite. Mas no dia seguinte ponho a mão no peito com medo que o coração pare.
Acordo com dores nas costelas e penso que é do ginásio. Dois dias depois percebo que alguém me agarrou enquanto eu caía a peso morto, sem controlo nas pernas, a visão reduzida a flashes distantes dos quais fui apenas espectador.
Sacrifico o lazer e muitas vezes a família pelo trabalho. Mas quando sinto algo para celebrar volto a desaparecer pela noite dentro até não sentir nada - apenas, no fim, um frio no peito e uma culpa insuportável.
Talvez no Ocidente nos rebelemos destruindo-nos na noite. Kamikazes sem alvo. Lutamos contra nós próprios porque é mais fácil do que encontrar a raiz do problema.
Um vazio cresce a cada arrastar de polegar. A distância entre aquilo que poderíamos ser e quem somos às três da tarde.
Estou na cama a escrever. Abro o Instagram e sinto imediatamente que devia estar numa cerimónia de prémios.
O Thimothé Chalamet fala sobre o seu novo filme, Marty Supreme.
Não vamos todos chegar lá.
Ou talvez o algoritmo já conheça bem este ambicioso em busca de transcendência e aos meus vizinhos só mostre gatos e pessoas a cair.
Provável.
Dez da manhã. Excedi-me de novo após um jantar de amigos em casa.
Vou à casa de banho.
Ajoelho-me perante a sanita.
Vomito.
Primeiro sai um jacto de água, sabe-me bem expeli-la.
Depois arroz branco mal digerido.
Depois um líquido amargo, que deixa uma textura áspera nos meus dentes.
Em seguida, um monte de larvas brancas caem, a remexer-se em todas as direções.
Em seguida, algo com vértices duros me arranha a garganta ao sair. Três ou quatro faturas, longas, enroladas entre si, com traços, asteriscos e números borrados em papel húmido.
A minha boca dispara uma rajada de confettis metálicos, coloridos, leves, que voam para a minha frente brilhando sob a luz que vem da janela à esquerda.
Ponho os dedos na garganta, os olhos a lacrimejar.
Sinto tecido.
Puxo devagar.
Sai uma t-shirt da ACNE Studios, ainda com etiqueta, o tecido pesado e amachucado a cair contra a porcelana dura.
O estômago contrai-se outra vez.
Sinto que vou romper o esófago com a pressão.
Escorrega para fora de mim um pâncreas amarelo com veias azuladas desenhadas pela superfície.
***
GANDAIA
ft. Petty
***
Minotauro
ft. Hodari
***
02
Uma textura arranhada de sintetizador enche a sala, vinda de um Prophet 6, um teclado analógico tributo ao clássico Prophet 5 de 1978. Um sintetizador arpejado movimenta-se por baixo. Os dois fazem um diálogo bonito, o último pulsando por baixo do sintetizador principal como orgãos moles dentro uma estrutura dura de ferro. O produtor equaliza um pouco para dar espaço para o baixo que se seguirá.
Porque é que fazemos aquilo que fazemos? Porque é que passo dez horas num estúdio fechado à procura de uma textura nova, de uma forma diferente de descrever o mundo, de uma sonoridade que eu não consiga nomear, até já não me restar energia nem para brincar com a minha filha? Porque é que um telefonema de trabalho interrompe tudo - jantares, brincadeiras, descanso - como se fosse um pacto que, se eu quebrar, me vai tirar tudo aquilo que eu já ganhei? Porque é que não consigo parar de apontar ideias no telemóvel, mesmo quando alguém me está a olhar nos olhos? Porque é que decidi descansar o dia todo, depois de me descobrirem um quisto no intestino, mas estou na cama a escrever este texto?
O que eu faço, apesar de não ser um emprego de horário fixo, é a minha forma de estar no mundo — ajuda-me a percebê-lo, dá-lhe significado, beleza e ao mesmo tempo sustento. Não é bem trabalho. Não é bem prazer. É um pouco dos dois. Se tivesse um patrão, penso às vezes, tudo seria mais fácil de justificar. Seria um dever e não um prazer, e o sacrifício é nobre e o prazer carrega culpa.
- Consegues fazer os acordes mais cheios e emocionais? Um pouco mais épicos mas com beleza…okay, isso!
Na minha cabeça imagino os arranha-céus da Avenida Paulista a passar lentamente pelo vidro escuro do uber que apanhei ontem para o hotel, a pele quente da minha testa a tocar no vidro frio. Está tudo a soar hiper moderno mas com grão e textura, o que eu gosto.
Hoje em dia vivo diariamente com a frase “se tudo isto vai desaparecer, como aproveito o meu tempo de forma intensa?”
Como posso viver 48 horas num dia de 24?
Quando estou a caminho de alguma coisa, sinto-me vivo. A chegar à Sony em Madrid para me apresentar como artista. Em Argel, com os meus parceiros a tentar mostrar ao mundo algo que me apaixona, enquanto somos vigiados por polícias à paisana. A filmar um videoclipe em que a actriz principal emociona toda a sala com a sua performance. A caminho de São Paulo para uma semana de residência com artistas e produtores que admiro.
No meu estúdio às 2 da manhã,
Sou um cientista louco num laboratório com a cara iluminada de azul, que sai para fumar à janela a olhar para a Lua, saboreando o que acabou de inventar.
Sou um filósofo em 1660 a reinterpretar o mundo à luz das velas, sem saber se alguém um dia me vai perceber.
Sou o Fernando Pessoa na Baixa-Chiado a viver dentro de palavras em páginas infinitas, absinto ao lado, enquanto o mundo lá fora seguia a sua rotina sem saber que nunca mais iria ser o mesmo.
Sou um relato de futebol permanente, sempre a chegar perto do golo.
Sou uma página da Wikipédia que vai contando com um tom factual cada capítulo da minha vida.
Sou uma personagem da Disney a largar o seu local de origem para perseguir o seu sonho, os violinos a tocar enquanto avanço.
Sou o mito do sonho, do trabalho, do legado, da imortalidade, da transcendência. Sou uma imagem épica que me foi passada — e que tento reproduzir a todos os momentos da minha vida, dando todos os segundos a um ideal capitalista, como grãos de um deserto que vão caindo para dentro de um buraco invisível pouco a pouco.
- Como podemos tornar este synth mais francês?
- Como assim, mais francês?
- Com uma textura mais Air, mais Daft Punk, e uma melodia emocional e sweet mas dark.
- Assim?
- Demasiado feliz. Tem de estar algures entre o triste e o alegre, sombrio mas com beleza…
- Vê lá assim.
- Okay, está a ir lá…
Apanho o voo da noite para São Paulo com estúdio marcado de manhã. No aeroporto já estou a gravar vozes, enquanto uma criança brinca com os pais ao lado. Vi a pequena cabeça da minha filha a tentar espreitar pela janela do carro para me dizer adeus, a chamar “papá!” enquanto o carro se ia embora, a desaparecer entre turistas recém-chegados, famílias que se despediam, alguns toxicodependentes a deambular, polícias a manter o trânsito a rodar, e a minha mão direita com um cigarro a limpar as lágrimas da cara, que escorriam enquanto o meu músculo do queixo se contorcia para cima e para baixo, descontroladamente.
Sei racionalmente que nem todo o sacrifício é recompensado. Nem todo o esforço vale a pena. Se fosse, os meus melhores amigos de liceu não viveriam em casas mínimas sem janelas, a mãe do André não teria trabalhado até ter um AVC, o Gama não teria de dormir com os vidros partidos no inverno, o Sandro seria jogador de futebol, o Necas não estaria preso por homicídio, a Natália não teria morrido aos 16 anos, o Wilson não teria sido encontrado no Tejo depois de uma semana em decomposição na água turva.
Peço à hospedeira um copo de água. Escolho o arroz com frango, os tortellinis vêm sempre cozidos demais. O sonho de levar a minha música até ao Brasil ferve-me a cabeça e não me deixa dormir, assim como o assento pequeno e o braço teimoso do senhor ao meu lado. Um dia vou viajar em primeira classe, penso. É um sonho específico e concreto o suficiente por agora, para o qual neste preciso momento faz todo o sentido trabalhar.
- Liga o microfone, quero experimentar uma melodia. (Num momento inicial procuro melodias fortes e ritmos inesperados, que tenham algo de familiar para mim e ao mesmo tempo novo. Solto uma espécie de grito de aviso, a cantar sobre as sirenes que se ouvem pela cidade, “até que um dia, quiçá, nos venham buscar”.)
- Gosto disso, responde o produtor.
- Eu também, mas ainda pode ficar melhor. Estou à procura da letra certa. Isto faz sentido em português do Brasil?
(Dentro desta letra apocalíptica tenho de pôr algo de verdadeiramente belo, senão isto vai parecer um daqueles filmes independentes do norte da Europa em que tudo é feio e escuro. Tem de ser poético, belo, forte e duro, mas sobretudo belo, penso para mim.)
- Deixa-me repetir este verso, vou cantar de novo.
Ao meu lado no avião, um irmão e uma irmã vêem um filme de acção com as cabeças encostadas uma à outra. Uma mãe tenta acalmar o filho irrequieto. Uma senhora mais velha passa por cima do meu ombro em direcção à casa de banho, os óculos a reflectir as luzes ténues do corredor. As estrelas brilham na janela do avião à minha direita, a lua em quarto crescente a iluminar um campo de nuvens brancas azuladas em baixo.
O artista com quem estou a trabalhar completa a letra e surpreende-me verdadeiramente. Acrescentou drama e trouxe referências bem metidas das quais não me tinha lembrado. A música está dura mas bonita. Faz-me lembrar a última cena do Fight Club. Consigo fechar os olhos e ver a senhora maluca que me gritou na cara ontem na rua atrás do hotel na Avenida Paulista, ao mesmo tempo imaginar um filme passado em Nova Iorque, que é como vejo São Paulo, uma Nova Iorque lusófona. Está vívido, intenso, e faz-me dançar.
– Está lindo, irmão, lindo! - Digo para fora enquanto fumamos um cigarro à janela, a dançar frente a frente, a chuva forte de São Paulo a cair nos prédios ainda quentes do dia de Verão.
Carrego no play.
No ecrã pequeno à minha frente, um globo gigante começa a desvendar-se, começando pela Àsia, Médio Oriente, passando pela Europa, que fica para trás com a Península Ibérica em último, depois o Oceano Atlântico e as Américas do outro lado, acabando com a face do globo que une os dois continentes, mostrando centenas de cidades iluminadas a electricidade naquilo a chamamos hoje de O Ocidente, com uma música orquestral operática triunfante, e a palavra ‘universal’ em letras grandes. Os créditos iniciais começam a rolar num ecrã preto, creditando as mais importantes das centenas de pessoas que deram 3 a 5 anos da sua vida para fazer este filme.
Por baixo de mim o Atlântico.
Adormeço no começo do filme, esgotado, a cerca de 6 horas de São Paulo.
* * *
30.09.25

Pelo farmadrive cada medicamento
vem com menos ansiedade
Fora do branco clínico intimidante
E do olhar de frente do farmacêutico
a tentar descrever os meus sintomas
Prefiro olhar de lado, no carro,
A música baixa
e a tensão também
Uma conversa à janela com alguém
Um sorriso e talvez até um ajeitar de cabelo
com o dedo, para trás da orelha
Tudo a seguir desta luz vermelha
— Prefere o genérico?
Não, pode ser o normal
O de referência
Carrego no botão do volante para falar com o meu Polestar
— ir para casa.
Para o conforto de uma luz suave,
nem demasiado quente nem demasiado fria
No tecto os padrões turquesa que reflectem da piscina
Na parede o piscar abrupto de uma cilada na televisão
Encontro conforto na direção fotográfica do meu dia-a-dia
E a vida é um filme no qual sou o realizador,
um actor de método
e sobretudo um espectador
***
ikea
***
01
Aos 32 anos, já não sou um miúdo. Já não estou na categoria de jovem, de pós-adolescente. De vez em quando um condutor de Uber mais velho ainda me cumprimenta com “bom dia, jovem”, mas cada vez menos.
Onde está esse limite e quando é que o passei? Ainda agora, aos 28 anos, estava do lado de lá - e quatro anos depois já não estou. Serão os cabelos brancos que invadem a minha cabeça, subindo pelas têmporas? A filha de 3 anos que já começa a formar as primeiras memórias?
Aos 28 eu andava de saída em saída, de programa em programa, a tentar agarrar cada pedaço de experiência como se a vida fosse uma sucessão de verões intermináveis, e não a carregar o meu carro elétrico a caminho do Algarve, com a minha família no banco de trás. É essa a diferença, respondo a mim mesmo.

Fotografia: José Pereira
Olho para o lado: uma fila de dez carros elétricos, homens de pólos e calções, cartão da EDP Electric na mão, bebés a dormir nas cadeirinhas, carros cheios de malas, parceiras no banco do passageiro a mexer no telemóvel.
“Já tentou pela aplicação? O sistema de carregamento em Portugal ainda deixa muito a desejar, espere que aquele ali vague, acho que está a carregar bem.” Neste momento, há que admitir: eu sou um destes homens.
Não consigo acreditar.
Vejo os últimos sete anos da minha vida a passar à frente: os amores de verão, os desgostos que tornavam tudo vívido, uma bissexualidade que começava finalmente a ser explorada, as noites de três dias sem remorsos, os fins de tarde no telhado do prédio em Arroios, as cervejas no parque, as unhas de gel, o carisma e o desprendimento induzidos pela dopamina e serotonina, o dedo-do-meio apontado às regras da sociedade patriarcal.
Esta semana:
1) marcar mais sessões de produção;
2) reservar mesa no Solar do Presuntos;
3) levar o carro a lavar;
4) tratar da pré-inscrição da criança na escola internacional;
5) marcar as férias na Grécia e no Algarve.
O trabalho tornou-se o meu tempo de lazer mais prazeroso. Já não vejo os amigos com quem não tenho relação profissional há meses. Notícias de diagnósticos de cancro começam a surgir aqui e ali. Não consigo sair de uma dormência perante o desmoronamento do mundo, que agora testemunho através de um ecrã LED de 32”.
As ruas sujas, vivas e estimulantes que outrora foram o meu alimento já não são o meu habitat natural.

David Hockney – Portrait of an artist (pool with two figures)
No meu habitat actual do Noroeste de Cascais - ao qual me demorei um pouco a adaptar, carregando hábitos selvagens adquiridos ao longo de anos na selva de calçadas brancas, a verdade é que estou confortável. Um conforto tão grande que me traz uma satisfação que nunca tinha sentido mas que outras vezes me faz sentir dormente, a arrastar-me pela vida de refeição em refeição. O absurdo da existência tornou-se evidente, revelado pelo silêncio dos subúrbios forrados a relva, piscinas e letreiros de stands de carros de luxo.
Olho para os homens mais velhos num hotel: parecem-me orangotangos agarrados a sanduíches de atum e maionese. É-me muito claro que a vida vai passar mais rápido do que eu esperava. A frase “ainda falta tanto tempo para isso!” é agora uma memória de infância que revisito com espanto, como se fosse um filme.
Lembro-me de estar deitado no meu quarto na Graça a olhar para o tecto branco horas a fio, aconchegado no lençol de quem tem todo o tempo do mundo pela frente.

Imagem gerada por IA
Sinto-me com medo e perdido, à procura de sentido num universo sem significado. O pensamento da morte está sempre presente, e acorda-me num solavanco quando estou prestes a adormecer. Ao mesmo tempo tiro prazer em pensar nestas coisas se tiver um cigarro e um copo na mão. Se não fosse este barulho e inquietação, seria só mais um pai com carro elétrico naquela fila a caminho do Algarve? Ou será que eles também pensam nestas mesmas coisas - e sou mesmo igual aos outros pais de Tesla? Bebo um gole de cerveja gelada e preparo-me para saltar para dentro da piscina. Mergulho, abro os olhos debaixo de água e vejo a superfície ondulante e espelhada, a luz a entrar, o mundo real separado por uma fina camada gelatinosa.
Experiencio a eternidade.
Um dia, mais tarde ou mais cedo, vou mergulhar nesse líquido informe e ficar nesse intervalo para sempre. Olhar o mundo como luz e matéria distorcida, por um momento eterno. Vai ser lindo, e depois vai-se desvanecer pouco a pouco.
Dou mais um gole na cerveja média fresca.
***